Supervisão clínica em Enfermagem: Pensar as práticas, gerir a informação e promover a qualidade
Abreu, Wilson
1. NOTA INTRODUTÓRIA
Ao longo da
sua história, as organizações de saúde foram geridas de acordo com modelos de
gestão politicamente situados, determinantes de processos de mudança viabilizados
pela própria sociedade. É nesta sentido que é necessário compreender as evoluções
que se perspectivam nos sistemas de saúde.
Os novos
caminhos para a administração dos serviços de saúde conduzem inexoravelmente ao
debate sobre modelos de gestão, financiamento e controle de custos, parcerias,
convenções, políticas de medicamento e relação com as instituições de formação.
No entanto, esta tendência para promover a racionalidade económica do sistema
de saúde perde todo o sentido se as políticas definidas não forem orientadas
segundo o respeito pela coesão social, compreendendo este o acesso aos
cuidados, o respeito pela dignidade humana, a segurança dos cuidados de saúde e
mesmo o suporte (formação, acompanhamento) dos profissionais de saúde.
Compreende-se, assim, que um dos
desafios mais importantes que hoje se colocam à União Europeia seja o desafio
da qualidade. Na área da saúde, a adopção de estratégias integradas que visem o
desenvolvimento do sistema de saúde e a promoção global da qualidade vem de
alguma forma dar resposta a um conjunto de exigências sociais e económicas.
Usufruir de cuidados de saúde com qualidade é um direito que assiste aos
cidadãos no quadro de um Estado de direito com preocupações sociais.
A institucionalização
de um sistema de qualidade de saúde foi um dos principais elementos
estratégicos da política de saúde definida em Portugal para os últimos dez
anos. Na área da formação clínica dos enfermeiros, os debates em torno das
experiências de “preceptorship”, “mentorship”, qualidade de cuidados,
aprendizagem pela experiência e educação informal fizeram emergir a
problemática da supervisão das práticas clínicas. As próprias normas constantes
de diversos programas de auditoria e acreditação fazem referências explícitas à
supervisão clínica na área de enfermagem (SCE).
O conceito de SCE, utilizado no
âmbito da formação graduada, formação pós-graduada e no decurso da experiência
profissional dos enfermeiros, refere-se a uma relação profissional centrada na
exigência, na formação, no trabalho e no desenvolvimento emocional, que envolve
uma reflexão sobre o desenvolvimento das práticas orientadas por um profissional
qualificado. Compreende um conjunto de estratégias (centradas no profissional e
no grupo), incluindo preceptorship, mentorship, supervisão da qualidade das práticas,
promoção e acompanhamento dos critérios de qualidade.
Uma análise da produção
científica dos enfermeiros na União Europeia permite concluir que a supervisão
clínica entrou decisivamente no vocabulário utilizado nos contextos de saúde. A
investigação produzida sobre a aprendizagem clínica, qualidade de cuidados,
discursos profissionais ou economia da saúde aponta nesse sentido. O King’s Fund Health Quality Service
(conjunto de referências com um crescente impacto no parque hospitalar
português) inclui nas suas normas uma referência expressa à supervisão clínica
na área de enfermagem (SCE).
2. OS
DESENVOLVIMENTOS HISTÓRICOS
O investimento nas estratégias
de SCE não é novo, embora neste início de milénio seja percebido de forma
distinta. No mundo árabe, designadamente no Cairo, Damasco ou Bagdad, nos
períodos áureos da cultura islâmica, os processos de SCE acompanhavam o que
hoje poderíamos caracterizar de avaliação dos hospitais ou mesmo de
certificação profissional. No contexto ocidental, foi com Nightingale que começou
a estruturar-se o que mais tarde se viria a designar por SCE.
Nos EUA a SCE desenvolveu-se
exponencialmente, fruto da rápida evolução estatutária e académica da profissão,
do sistema de cuidados de saúde, dos modelos de gestão, de uma atitude
progressivamente mais exigente face aos cuidados de saúde e da própria
organização social. Nos países do Norte da Europa, apesar de estarmos perante
contextos sócio-económicos diferentes, verifica-se o mesmo desenvolvimento (com
alguns anos de atraso face aos EUA). À semelhança do contexto norte-americano,
o ensino de enfermagem transita para a universidade (apesar de alguma timidez,
registe-se), a enfermagem trabalha e conquista novos enquadramentos, discute-se
a relação entre a teoria e a prática, o acompanhamento dos ensinos clínicos
coloca-se no centro das reflexões sobre a formação graduada; os limites éticos,
o estatuto profissional, a responsabilidade e a qualidade são sistematicamente
introduzidos no debate sobre as ciências de enfermagem.
Na área da enfermagem
psiquiátrica, o tema era discutido desde 1943. Em 1982 foi definido um primeiro
modelo de intervenção, com a implementação do Registered Mental Health Nurse Syllabus. No entanto, apesar de
existir já um quadro conceptual de referência, o processo de SCE não se concretizou
nas áreas assistenciais (Swain, 1995). Também na década de oitenta, existiam no
Reino Unido algumas experiências sobre SCE na área da enfermagem de saúde
materna e obstétrica (Kohner, 1994). Em termos conceptuais, foi sem dúvida
Hildegard Peplau uma das autoras que tentou introduzir de forma mais
consistente a temática da supervisão clínica em enfermagem.
Uma série
dramática de factos motivou uma atenção acrescida à SCE. Nos acontecimentos
trágicos de Bristol, Kent e Canterbury, bem como no caso Beverley Allitt,
estiveram em causa a morte e a integridade de pacientes. A sociedade assistiu
aterrorizada aos acontecimentos. O sistema de saúde deveria providenciar
condições para que tais situações não se repetissem. A ANHOPS (NHS Occupational
Phisicians) advertia para a necessidade das instituições de saúde promoverem
políticas de prevenção, que permitissem um acompanhamento sistemático e ajuda
aos profissionais de saúde, práticas que diversas organizações psiquiátricas já
tinham implementado, em grande medida devido aos trabalhos de Max Eitington na
área da supervisão das práticas psicanalíticas.
Foi sem
dúvida após Allitt que a sociedade, as instituições e as associações profissionais
passaram não só a aceitar mas mesmo a solicitar a existência de SCE nas unidades
de cuidados. Em 1993, o Departamento de Saúde publicava “A Vision for the Future”, documento em que advogava um conjunto de
políticas que pressupunham a existência de processos de SCE (Fowler, 1996). Tait referia, em 1994: “What perhaps bears spelling out is that
Clinical Supervision should be a mechanism for protecting standards and public
safety, while supporting the development of excellence in practice” (Tait, 1994).
A discussão pública gerada em torno do caso Allitt aceitava a SCE como
forma de promover a protecção, a segurança e o bem-estar dos doentes. Bishop
(1994), neste contexto de discussão sobre as consequências do caso Allitt, considera
que a SCE é simultaneamente uma forma de promover práticas de qualidade, dar
suporte aos profissionais e promover a segurança dos utentes.
3. SUPERVISÃO
CLÍNICA: CONCEITOS E ALCANCE
Mas o que
se entende por supervisão clínica em enfermagem? Barber e Norman (1987: 50) sugerem uma definição
que, na sua essência, pode servir como ponto de partida para esta nossa
reflexão: “...an interpersonal process
where a skilled practitioner helps a less skilled or experienced practitioner
to achieve professional abilities appropriate to their role, and at the same
time offers counsel and support”. Em 1993, o NHS Executive (citado
por Sloan (1999: 525), definia da seguinte forma a SCE:
“A term used to describe a formal process of
professional support and learning which enables individual practitioners to
develop knowledge and competence, assume responsibility for their own practice
and enhance consumer protection and safety of care in complex clinical
situations. It is central to the process of learning and to the expansion of
the scope of practice and should be seen as a means of encouraging self assessment
and analytical and reflective skills.”
Para o Departamento de Saúde do
Reino Unido (DoH, 1993), trata-se de um processo formal de suporte e
aprendizagem que proporciona aos alunos ou aos profissionais um desenvolvimento
integrado de competências, assumir responsabilidade pela sua própria prática e
promover a qualidade e segurança dos cuidados, especialmente em situações de
reconhecida complexidade.
Para muitos investigadores, o
primeiro contacto com as abordagens teóricas na área da SCE é desolador. De
facto, desde o conceito aos quadros conceptuais existem variações
significativas, que no entanto só aparentemente se podem considerar limitações.
Este facto é reconhecido pelo
UKCC (United Kingdom Central Council for Nursing, Midwifery and Health Visiting). Segundo este organismo,
existem diversas condicionantes contextuais que interferem com os quadros
conceptuais em supervisão clínica: os modelos de enfermagem, a experiência
institucional, as disciplinas envolvidas, as formas de organização das
práticas, a organização local da formação e mesmo os percursos pessoais nesta
matéria: “Supervision models also vary in
the emphasis given to each of the above elements, sometimes in accord with the
orientation and view of the originating theorist. Models derived by educationalists
stress learning, models derived by managers tend to stress oversight, service
quality and outcomes and those developed from psychotherapeutic approaches
often emphasize interpersonal support” (UKCC, 1996).
Analisando os estudos realizados no
âmbito da SCE apercebemo-nos da multidimensionalidade do processo. A SCE surge relacionada com
o investimento na qualidade das práticas (Butterwoth e outros, 1997); segurança
pessoal e da equipe, através de uma atenção aos processos relacionais e de
afirmação pessoal (White e outros, 1998); identificação com o conteúdo do
trabalho e a satisfação profissional (Hallberg, 1994; Nicklin, 1997); quadros
cognitivos, espírito crítico, análise das práticas e decisões informadas
(Hallberg, 1994), níveis de ansiedade e disponibilidade psicológica para
estabelecer relações de ajuda (Jones, 1998).
4. MODELOS DE
SUPERVISÃO CLÍNICA EM ENFERMAGEM
Nos últimos
vinte anos surgiram diversos modelos de SCE, entre os quais se destacam os de Proctor
(1986), Page e Wosket (1994), Hawkins e Shohet (1989), Johns (1993, 1998) e
Butterworth e Faugier (1994). Podem identificar-se, na generalidade deles, dois
pressupostos de base. O primeiro corresponde ao reconhecimento da maturidade da
profissão: a enfermagem é uma profissão capaz de lançar um olhar crítico sobre
si própria, dando assim um sinal de exigência e responsabilidade. O segundo
reporta-se ao reconhecimento de que os alunos e os profissionais se confrontam,
nos contextos clínicos, com situações potencialmente agressivas para a sua
própria integridade psicológica. Como disciplina que se orienta em função do
bem-estar dos utentes, a enfermagem deve prestar atenção às dimensões pessoais
e profissionais dos enfermeiros, identificando áreas em que estes necessitam de
suporte científico, afectivo ou emocional.
Yvonne Moores, referindo-se à
diversidade dos modelos de SCE, defende que esta reflecte a idêntica
diversidade das áreas clínicas e da sua organização (Butterworth e outros,
1996). A organização das práticas numa UCI ou num Centro de Saúde é obrigatoriamente
diversa, o que naturalmente condicionará os modelos ou as estruturas locais de
SCE. Existem estudos que exploram não apenas as diversidades entre os modelos
mas igualmente as estratégias diferenciadas que propõem (Platt-Koch, 1986; Kohner,
1994; Jones, 1998, 1999).
Pela forma
e simplicidade como está estruturado, vale a pena fazer referência ao modelo de
Nicklin. O autor define um modelo de SCE que, para além de possuir um
enquadramento conceptual consistente, está profundamente direccionado para a
prática clínica na sua globalidade e não apenas para as dimensões emocionais. Refere-se,
como adianta Sloan (1999: 528), às vertentes “managerial (e.g. clinical standards, appraisals), educational (e.g.
mentorship) and supportive (e.g. personnel services) elements”. O processo
de SCE desenrolar-se-ia segundo um ciclo de seis etapas:
PROCESSO
DE SUPERVISÃO CLÍNICA
Objectivo
Apreciação
de situações-problema (competências clínicas, estratégias de gestão de
cuidados, dimensões afectivas e relacionais);
Identificação
do problema
Clarificação
das áreas dos problemas identificados;
Contextualização
Definição
de objectivos de intervenção que salvaguardem as expectativas, obrigações e
aspirações da instituição, dos utentes e do próprio profissional;
Planeamento
Preparação
e programação da intervenção, de acordo com os intervenientes;
Implementação
Implementação
das acções planeadas;
Avaliação
Avaliação
dos resultados e do processo de supervisão;
Adaptado de Nicklin (1997)
Brocklehurst
(1994) salienta um conjunto de aspectos que considera comuns à generalidade dos
modelos de SCE:
A
SCE tem subjacente um leque de preocupações que se articulam no decurso da
prática clínica: segurança das práticas, desenvolvimento de competências,
suporte e encorajamento dos desenvolvimentos pessoal e profissional;
O
desenvolvimento do processo de SCE requer estruturas e procedimentos próprios,
no âmbito dos quais importa realçar: a formação dos supervisores, a articulação
com outras dimensões organizacionais e a elaboração de documentos de
referência;
O
êxito do processo de SCE está dependente da qualidade de relação entre o
supervisor e o supervisado.
Embora a generalidade dos
modelos confira especial atenção às características do supervisor, na prática
estas nem sempre são consideradas (Sloan, 1998). Catmur (1995) salienta, a
nível das características do supervisor, as capacidades de comunicação, competências
de ajuda e conhecimentos especializados. Butterworth e Faugier (1992) sugerem
que os supervisores clínicos devem disponibilizar-se eles próprios para serem
supervisados, possuir uma preparação específica para desenvolverem o processo,
possuir capacidades formativas, desenvolver práticas clínicas e serem escolhidos
pelos supervisados. Por último, salientam a necessidades dos supervisores
saberem utilizar resultados das pesquisas para fazerem evoluir o processo de
supervisão.
5. NOTA FINAL. A
INVESTIGAÇÃO NA ÁREA DA SUPERVISÃO
O termo “supervisão”
é utilizado tradicionalmente nas áreas da psicoterapia e da gestão. O
investimento na área da supervisão clínica admite um outro sentido para o termo
“supervisão”. Desde logo porque o supervisor clínico não deve estar comprometido
com a hierarquia organizacional e deve obrigatoriamente desenvolver, também
ele, a prática clínica. É naturalmente uma das prerrogativas para poder ajudar
a promover uma utilização terapêutica do
self.
A relação entre a SCE e a supervisão
enquanto processo com dependências hierárquicas e administrativas é discutida
por Cottrell (2001) e Darley (2001); ambos defendem que existem, a nível
conceptual e empírico, inter-conexões entre ambas, embora não sejam processos
isomórficos. O UKCC
pronunciou-se objectivamente sobre esta questão em 1996: “…in their position statement, assert that «clinical supervision» is not
a managerial control system and is not overtly a managerial responsibility or
managerial supervision” (Gray, 2001: 14).
A
abordagem da supervisão clínica em enfermagem começa, de uma forma progressiva,
a conquistar as ciências de enfermagem (Cook e outros, 1997) e a estender-se às diversas
áreas especializadas que se desenvolveram ao longo dos anos na profissão.
Uma grande parte das pesquisas
salientam as dimensões de suporte (Sloan, 1999): Balsam e Garber (1970); Gaoni e
Neumann (1974); Worthington e Roehlke (1979); Heppner e Roehlke (1984);
Worthington (1984); Rabinowitz e outros (1986).
Pesut e Williams (1990)
estudaram as características de um supervisor clínico e trabalharam um
instrumento de colheita de dados específico: o “Nursing Clinical Supervision Questionnaire”. Fowler (1995) estudou
as características desejáveis num supersisor, sob a perspectiva do supervisado,
recorrendo a métodos qualitativos e quantitativos. Salienta que os inquiridos
reconhecem a pertinência de um conjunto determinado de características, mas
indicam que as capacidades formativas são as realmente estruturantes do
processo de supervisão.
Cutcliffe e Epling (1997)
salientam a importância da SCE para o desenvolvimento profissional. Outros
autores concluem que os inquiridos não possuem informação suficiente sobre SCE,
mas ajuízam sobre a sua relevância a partir de “conhecimento intuitivo” (Benner
e Tanner, 1987; Agan, 1987). Nicklin (1997), tal como outros investigadores já
citados, salienta que os enfermeiros inquiridos (que beneficiaram de supervisão
clínica) têm uma representação positiva sobre a sua pertinência. Dunn e Bishop (1998),
Fowler (1998), Sexton-Bradshaw (1999) e Webb (1997) referem-se igualmente a
representações positivas sobre a SCE, mas na óptica dos supervisores.
O discurso
sobre a qualidade ocupa
progressivamente o debate político e científico em torno dos cuidados de saúde.
Ninguém tem respostas definitivas em matéria de qualidade, mas ficamos sempre
com a ideia de que os grandes debates se polarizam em torno de políticas
“macro”, de poderes que dão visibilidade ou das grandes opções “estratégicas”.
Ficam insistentemente por discutir um conjunto de mudanças de incidência local,
com profunda repercussão na qualidade e segurança dos cuidados de saúde.
Em matéria de cuidados de saúde,
a situação em que nos encontramos actualmente é a de uma tomada de consciência
progressiva sobre a qualidade e a excelência. O empenho de diversas
Universidades e instituições de saúde europeias na SCE tem um significado que
importa realçar. Admite-se que a qualidade dos cuidados de saúde não está só
dependente de tecnologias de mudança, mas também da transformação do sistema
humano, do cumprimento de critérios, da responsabilização, da organização e das
teias de relações entre os actores sociais. Em diversos países a aposta na SCE
esteve também na origem da identificação de áreas de formação especializada de
enfermeiros (enfermagem de família, enfermagem de saúde ocupacional, enfermagem
geriátrica, enfermagem oncológica, enfermagem de emergência e de cuidados
intensivos), definidas fundamentalmente para dar resposta às necessidades de
saúde da população e aos desenvolvimentos clínicos e não a condicionalismos
políticos e corporativos.
Aceitar e motivar o investimento
oficial na supervisão clínica em enfermagem, como o fez o UKCC do Reino Unido,
significa que o enfermeiro acredita na mudança centrada no cidadão e,
simultaneamente, que a sua capacidade de cuidar (e cuidar com qualidade) pode
ser francamente melhorada se a profissão aprender a olhar para si própria. Será
demais dizer-se “cuidar de si própria, para cuidar dos outros”?
6.
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[1]
Wilson Correia de Abreu. Doutor em Ciências da Educação (Universidade de
Lisboa). Professor Coordenador da Escola Superior de Enfermagem de D. Ana
Guedes (Porto). Docente no Curso de Mestrado em Supervisão (Universidade de
Aveiro).